A criança indobrável

A criança indobrável 

Desde ontem minha filha não anda.
O que a deixou assim não foi um acidente de carro, nenhuma síndrome rara, nem doença degenerativa paralizante (toc, toc, toc.).
O que a deixou presa à cama, ao colo ou rastejando (literalmente: ras-te-jan-do) pelo chão da casa foi um ridicularmente minúsculo arranhão no joelho.
(Fotografei sim, pra ninguém achar que eu tô relativizando a dor alheia).
Tudo começou com um tombinho bobo na escola. Quando eu fui buscar, estava andando quase normalmente. Ao chegar em casa, o arranhão virou uma enfermidade só menor do que o drama que a portadora do mesmo anda fazendo.
Esticar a perna? Nem pensar.
Apoiar o pé no chão? Nem com as piores chantagens emocionais.
Dar um passo? Só se for no colo de alguém, ou sentada de bunda no chão, arrastando o corpo com a força dos bracinhos.
(Deus me perdoe a comparação, mas ela tá “andando” igualzinha, igualzinha a uma mendiga aleijadinha que esmolava pelo Centro de Belo Horizonte quando eu era mais nova. Quem é daqui há de lembrar).
Isso desde ontem pela manhã.
Eu já tentei de tudo. Da infinita paciência materna, com direito a milhares de beijinhos e mãe faltando ao trabalho, até psicologias pouco ortodoxas, que incluem alguns berros e ameaças de palmada.
Não funciona.
Nada funciona.
Não consigo dobrar a Alice e fazê-la pelo menos tentar esticar a perna. Segundo ela, isso só vai acontecer quando a casquinha do machucado sumir, senão dói “muito, muito, muito, muito, muito, muito…”
(Persistindo esse veredicto, pelo pouco que eu conheço de processos cicatrizantes e Lei de Murphy, é altíssima a chance de eu embarcar para a Bahia, no domingo, com 14 kg no colo).

Como simpatizante de Leitura Corporal e outras abordagens holísticas para toda sorte de problemas, resolvi conversar a sério com o pai da criança:
– Ed, o que você acha que pode estar acontecendo?
– Como assim?
– Esse drama todo por causa desse joelho, o que será? Qual o recado que ela quer dar? Eu tô preocupada!

O pai, fiel a sua profunda formação zen-budista, filosofa:
– Juliana, já passou pela sua cabeça que a sua filha pode simplesmente ser uma chata?
Tem tanta gente chata e enjoada no mundo! Todas elas foram criança algum dia. Nossa filhinha querida também pode ser isso: uma mala!

É. Agora eu tô realmente mais calma.

: : Ju : :
http://mothern.blogspot.com/

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