Ping Peng

    Os estúdios possuem pouca verba para continuidade de suas produções. Por isso, geralmente a maior soma de efeitos especiais, qualidade de desenhos e computação gráfica, direção artística e musical, tudo se gasta em excesso no primeiro filme. No segundo e terceiro, a solução é conseguir um roteiro por um preço mais acessível, roteiro que gaste menos, graças a apertada verba da continuação. Essa máxima para desenhos animados é quase uma regra. Aí é que entra nosso mágico. Ping Peng, um chinezinho franzino que trabalha, hora varrendo o chão do estudio, hora cozinhando para os dubles ( hora trabalhando como dublê de duble). Ping Peng é o camera-man auxiliar, trabalha nas horas vagas como continuista, é também dublador. Acabou de sair da turma de computação gráfica. Musico nas horas vagas, poeta, letrista, arranjador e roteirista, Ping Peng é o cara na hora da continuação. Aquela fala sem graça na boca do personagem, aquele efeito que não tem nada, absolutamente nada a vercom a cena, aquela animação que devia ter 30 quadros por segundo e que foi reduzida a 20, tudo obra do esforçado Ping Peng. Porque é Ping Peng, sim, o grande e humilde chinezinho que ficará por trás de cada cena editada e das canções compostas e cantadas muitas vezes por ele mesmo. Ping Peng cobra pouco. De noite ainda estuda artes cenicas, acorda cedo ainda de madrugada para realizar as montagens com explosivos na próxima cena de ação, enquanto a tarde trabalha loucamente em sua mesa digitalizadora de sua velha estação gráfica da Silicom, doada por um estúdio que tinha percebido que em breve Ping Peng iría enfartar de tanto se matar sobre o velho computador, tentando fazer no Photoshop os efeitos especiais para a cena da continuação de certo desenho de ficção. Ping Peng come rápido a farinha que recebe de pagamento pelos seus trabalhos (ele mesmo produz seu próprio pão, quando sobra tempo) enquanto com a mão que ainda sobra (a outra fica mexendo a massa) esboça algumas semínimas na pauta improvisada que tem colocada na geladeira, procurando um espaço na composição orquestral de sua autoria, para o oboé que pediram pra incluir de último momento. Ping Peng é incansável, um exemplo de profissional eclético que ganhou grande respeito ao ter terminado a cena final de “a Pequena Sereia II” tendo nas mãos somente um mouse (porque o teclado de sua velha estação queimou repentinamente). Fica então nossa homenagem a esse personagem desconhecido, que deixa suas marcas atrás de cada produção, de cada imagem de uma continuação. Ah! Os créditos finais também são incluídos por Ping Peng, que por contrato é impedido de colocar seu nome como participante das produções por ele assinadas.
      Ping Peng. Esse é seu nome.

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