Porta de Saida

Porta de Saída

Eu sentei no primeiro banco do ônibus próximo ao motorista, indo da cidade até chegar próximo de onde morava. Ainda haviam outros lugares no ônibus quando ela entrou. Na verdade eu não a vi entrar. Eu tinha trinta e três anos na época. Ela talvez tivesse dezoito. Mas não é uma estimativa precisa. Vinha ou iria para uma escola cujo o uniforme era uma calça azul e uma blusa branca de tecido. O banco onde eu sentava é justamente aquele que fica atrás do motorista. O primeiro do lado esquerdo dos nossos ônibus municipais. Era uma tarde de outono, o dia não estava nem frio e nem quente demais, as avenidas pelas quais passávamos não estavam congestionadas, ao mesmo tempo o fluxo intenso de veículos não permitia que o ônibus andasse depressa demais.

Eu estava sentado junto a janela. Olhava as ruas, as pessoas, os outros carros, pensava na vida. Então ela sentou-se do meu lado. E por alguns momentos eu parei de respirar. Minto. Apesar de já passarem-se alguns anos, talvez eu ainda esteja prendendo a respiração. Ela era uma morena com os cabelos compridos e encaracolados, realmente muito bonita. E se sentou sorrindo. Eu sorri cordialmente e rapidamente grudei meus olhos na janela novamente. Mas fiquei inquieto. Por demais inquieto. Daquele tipo de inquietação que faz as mãos começarem a suar, depois que você descobre que não sabe o que fazer com as mãos. Mas, agora, ruas, as pessoas, os outros carros, e a vida, já não faziam tanto sentido. Mesmo porque já não conseguia enxergar as ruas, já não conseguia ver as pessoas, já não ouvia os outros carros e já nem pensava mais. A linda morena aparentemente não percebia que eu estava ao seu lado entrando em um estado de deslumbramento que já estava me lançando a uma outra dimensão. Como quem não queria nada, mas ao mesmo tempo obcecado pelo intenso desejo que os passageiros sentados ao lado de lindas morenas possuem de observarem ao menos por um breve instante, a silhueta da linda moça sentada ao seu lado, olhei em direção a porta de saída. Deve ser uma coisa instintiva isso. Querer olhar para a porta de saída. Da porta os olhos se voltaram para a jovem. E por uma dessas estranhas razões frutos dos mistérios contidos na imensidão do universo, a jovem olhou para o lado. Então aconteceu. Talvez não fosse para acontecer. Talvez fosse evitável. Duas forças descomunais se encontram pelo espaço de um sonho. Nossos olhares se cruzaram. Sabe quando os olhares se tocam? Já parou para imaginar porque nos sentimos tão incomodados se uma pessoa nos observa, se alguém fixa seus olhos em nós, e principalmente se os nossos olhos se firmam nos olhos de outra pessoa? Algo deve sair do ser humano junto de seu olhar. Uma força incalculável, invisível, mas presente, quando alguém se dispõe a olhar outra pessoa. Essas forças invisíveis se chocaram com tamanha grandeza, que fui constrangido a desviar meu olhar dos olhos castanhos daquela morena. E seu olhar não foi forte o suficiente. Talvez ela pudesse fazer um planeta se deslocar com aquele olhar. Talvez ela pudesse fazer chover se olhasse fixamente para uma nuvem. Mas por mais poderoso que seja um olhar, ele sempre se incomoda com outro olhar. Então ela abaixou seus poderosos olhos a vista da fragilidade dos meus. Os homens possuem, normalmente, força física maior do que de uma mulher, apesar das exceções. Geralmente os cargos de maior poder e autoridade ficam nas mãos de homens em tempo de paz, assim como o poderio de forças militares incontáveis em tempos de guerra. Mas, a cabeça de um general se desvia para o lado diante do olhar de uma prisioneira de guerra. Quando mais o meu, que nunca fui um militar. Tornei a olhar para a rua. Aquela que eu já não enxergava mais. Eu era um pouco tímido. Na verdade poderia sorrir e conversar. Mas, como já era comprometido, tinha ao mesmo tempo o receio de me envolver de um modo impróprio com quem não poderia. Receio fruto da condição humana. De suas fraquezas, suas idiossincrasias. Ou era fruto da minha condição humana naquele dia. No meio desta densa meditação, o motorista resolveu aquele impasse de conversar ou não conversar. Ele pisou bruscamente no freio. Tão bruscamente que eu cai. O banco em que eu estava sentado estava solto. Alguma coisa na lei da gravidade e outras leis físicas de movimento conspiraram para o que aconteceu nos momentos seguintes. Diz antiga lei que quando um ônibus freia bruscamente você deve ser lançado para sua frente e se possível, dependendo da velocidade, atravessar incontinente a película de vidro que separa o primeiro banco do assento do motorista. Assim faria, se não fosse a baixa velocidade e algo não tivesse me lançado para minha direita, fazendo-me cair desajeitadamente no colo da bela morena. Apoiando-me em seu colo e segurando uma coluna a frente de seu rosto me ergui. E solícito pedi desculpas, numa cor que ia do vermelho para o vermelho intenso. Ela sorriu de novo. E disse que essas coisas acontecem. Eu falei mais algumas coisas. Na verdade não me lembro o que falei. Na verdade eu só queria falar. Qualquer coisa. Em qualquer língua. E ela concordou com tudo o que disse. Ajeitando o longo cabelo.

Lembrei-me que tinha um trecho de um conto comigo, que trouxera para ler no trajeto. Apesar da tremenda impropriedade do momento, resolvi ler.

” O último

As naves capitaneas cercaram o planeta azul. A

nau principal enviou em todas as freqüências possíveis

o ultimato. Entreguem o último ou seu planetóide será

exterminado. Dentre as duas mil naves que rodeavam o

planeta azul, cem delas podiam dizimar um sistema

solar. A nau principal podia colapsar uma galáxia. Os

Sombrios eram um povo belicoso e vingativo. O ultimato

foi repetido por semanas. O terror se apoderou do

planeta azul. Tanto que enviaram batedores a todo o

planeta para procurar o último. Só que não sabiam

sequer o que procurar. Solicitaram explicações ao

cinturão de naves que já destruía parte de suas cidades

ao redor do planeta azul. Enviaram uma imagem de um

mundo desolado com um número na imagem. O número era de

20 bilhões.

De mortos.

As autoridades entenderam que aquele a quem procuravam

deveria ter alguma coisa com aquilo. Passaram-se mais

dois dias quando o prazo final dado pela esquadra

acabou. Os Sombrios se afastaram um pouco do planetóide

e uma das cem naves capaz de detonar um sistema

inteiro mirou suas armas na esfera azulada..

Foi quando um homem segurando uma criança nas mãos ao

lado de uma bela jovem, morena de longos cabelos,

blusa branca e calça azul, mãe da criança, apresentou-se

a um grupo de guardas na frente do prédio da ONU. O

homem beija a testa da criança, sorri e a entrega para

sua mãe. Então beija docemente a mãe da criança.

Disse que era o último.

Os guardas riram. O homem sorriu. Estendeu a mão

direita apontou para as bandeiras à frente do prédio.

Naquela tarde, sem vento, naquele entardecer

cuja fachada de vidro do Edifício da Onu se tingia de

vermelho, todas as bandeiras

tremularam…

…O comunicado da ONU partiu tarde demais. Aquela

entre as cem disparou um raio contendo poder de

incinerar um planeta contra o planeta azul.

Os Sombrios esperavam a coluna espiralada do mundo

colapsado emergir nos confins siderais no espaço de um

instante.

A coluna não surgiu.

As naves capitaneas enviaram um comunicado para a nace entre as cem.

A nave entre as cem não respondeu.

O último havia sido encontrado.

A questão era.

Poderia ser vencido? ”

Um minuto e dois segundos haviam passado. Eu tinha quebrado todos os recordes e ultrapassado todos os limites que a leitura dinâmica impõe. Ou que a mente impõe sobre a leitura dinâmica. Olhei de novo para o lado. Ela me sorriu. Eu abaixei o conto. Olhei para fora e adiante do nosso ônibus o sol declinava no horizonte, imenso e rublo, incendiando o céu. Então falei pela primeira vez algo com sentido. De como estava lindo o entardecer. Ela olhou para o céu e concordou. Lembrei-me que quando estava para pousar em Brasília certa feita, também havia visto um tremendo por do sol. Lembrei-me que no planalto central o entardecer também era muito belo. Ela concordou. O ônibus inteiro estava alaranjado, inclusive nós. Tons e reflexos do entardecer emolduravam o rosto da morena que outra vez fixou seus olhos em mim. Deveria existir uma lei que impedisse um olhar como aquele num por do sol com aquele. O tempo parou. Dentro de minha mente ao menos. Todos nós seres humanos possuímos dentro de nós uma equipe de cineastas que em determinados momentos montam todos os equipamentos de última geração para filmar essas cenas para o acervo de nossa memória. Nem tudo que vemos é filmado. A nossa equipe interior tem seus próprios critérios. Suas próprias escolhas daquilo que ficará no acervo. Chegou a hora em que a jovem soltaria. Ela olhou para a porta de saída, do mesmo modo que eu quando a vi pela primeira vez. E depois olhou para mim. Sorriu, disse “tchau”. Eu retribui, embora soubesse que não era “tchau”. Era adeus.

Na minha mente veio um trecho do conto que havia lido:

” O terror se apoderou do planeta azul.”

Enfim ela se levantou. Era como se não quisesse. Não sei explicar como sei. Talvez pelo modo triste com que disse “tchau”. Talvez fosse somente minha imaginação. Ela saiu pela porta da frente. Através da porta de saída.

Aquela maldita porta de saída.

Welington José Ferreira

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