Índia

Atenciosamente


Encontrei essa reportagem a respeito da Índia na época da novela Caminho das Índias e achei interessante… Cortei as perguntas inúteis e deixei as mais legais (a maioria). O mais legal é que essa reportagem diz que o sistema de castas não é obrigatório na Índia desde 1940, mas que se mantém devido à costumes e pressões culturais… A Doutora fala sobre a novela, mas sempre colocando a cultura indiana no meio. Dá uma lida!!
(Jessica)
 
Em entrevista a ÉPOCA, Nanci, PHD em política internacional pela New York University, explica que o sistema de castas é completamente imóvel, não permitindo ascensão a quem enriquece ou recebe educação. Hoje, há dalits muito ricos e influentes na Índia, como Mayawati, a governadora do Estado de Uttar Pradesh, o mais populoso do país, e Konakuppakatil Balakrishnan, o presidente da Suprema Corte. Boa parte dos 160 milhões de dalits, porém, vive em situação de extrema pobreza, e sujeita a sofrer violências quando se envolve com as castas superiores. Segundo um levantamento do Institute for Conflict Management, uma organização sem fins lucrativos baseada em Nova Déli, apenas em 2007 foram registrados 27 mil crimes contra dalits. Na entrevista, Nanci faz uma comparação entre a trama ficcional da novela e a cultura indiana atual.
ÉPOCA – E a retratação do sistema de castas, está sendo fiel à realidade? 
Nanci – É preciso elogiar a inteligência dramática da [autora] Glória Peres. Ela está tratando a família e o sistema de castas dentro de situações que só a ambiguidade do drama pode permitir. Um exemplo é o Raj [interpretado por Rodrigo Lombardi] ter um filho com uma estrangeira [Duda, a personagem de Tania Khalill]. Esse filho não poderá exercer a função liberadora do espírito do pai porque não é um filho de um matrimônio hinduísta. Ao mesmo tempo, ele terá em casa um filho que não é dele, mas sim de um pária, um dalit [Bahuan, personagem de Marcio Garcia], algo que quebra todos os votos do hinduísmo, porque o dalit está fora da religião. Isso é um enigma dramático, que só uma concepção inteligente poderia criar.
E o casamento com um estrangeiro também é mal visto?
Nanci –
Sim, pois mesmo quando o casamento é feito fora da ordem há problemas. Por exemplo, se o filho mais novo se casa antes do mais velho, isso é motivo para a família excluir esse filho mais novo. Se o noivo fosse um estrangeiro seria ainda mais problemático. O sistema de castas está descrito no Rigveda, o mais antigos dos Vedas (textos sagrados) do hinduísmo, escrito por volta de 1.200 a.C. O Rigveda é composto por mais de mil hinos escritos em sânscrito, entre eles Purusa-sukta. Segundo esse texto, durante a criação do mundo um ser primitivo chamado Purusha foi sacrificado. A partir de quatro partes de seu corpo – boca, braços, coxas e pés – surgiram as castas, ou varnas.
Brâmanes – vieram da boca e são a classe mais alta, a dos sacerdotes. Eles são os responsáveis por entoar as escrituras sagradas, uma responsabilidade muito importante, pois é por meio da comunicação oral que o conhecimento do hinduísmo é transmitido.
Xátrias – vieram dos braços de Purusha. É a classe de guerreiros e governantes.
Vaixiás – vieram das pernas. É a casta dos comerciantes, pessoas que viajam para trabalhar e com tarefas especializadas
Sudras – é a última casta, que veio dos pés. São os artesãos, camponeses, operários e trabalhadores que realizam tarefas consideradas subalternas.
Dalits – Não são uma casta, mas sim todas as pessoas que não fazem parte das quatro castas principais.
O que aconteceria em uma família padrão indiana caso fosse descoberto o filho de um dalit entre as castas superiores?
Nanci –
 Isso é praticamente impossível. É uma situação limite, em casos de imensos sacrifícios ou de grande anomia social. Isso só ocorreria em uma situação na qual a falta de regras já estivesse instalada. Há um filme indiano que ilustra uma situação dessas. Um sacerdote estava fazendo os ritos de morte de um homem moribundo muito rico e, para manter seu prestígio, depois de ter cometido um erro astrológico, que lá é algo muito grave, ele dá a filha em casamento ao moribundo. Além de casar com esse homem, a menina deveria se matar depois que ele morresse. Nessa situação de terror, a única pessoa que mostra alguma consideração é o dalit que estava presente esperando o homem morrer para levar as cinzas. E ela se enamora e tenta ficar com ele.
ÉPOCA – Essa rigidez do hinduísmo é homogênea em todo o território da Índia?
Nanci –
É geral. Os indianos seguem os primeiros textos sagrados escritos há alguns milênios, mas eles não são lidos pela maioria da população [todos estão escritos em sânscrito], e sim ouvidos, porque a maioria da população não é capaz de lê-los. Por conta disso, os ensinamentos são passados por meio de ritos de transmissão, e as castas dão origem a milhares de subcastas de acordo com a localidade e tomam características próprias conforme aspectos como a cultura e a língua. Mas há regras a serem cumpridas e elas eliminam a promiscuidade. A pessoa não pode, por exemplo, se casar com alguém da mesma vila, que ela viu crescendo. É preciso ser alguém da mesma casta, da mesma profissão, mas que seja de outra cidade. Foi esse sistema que defendeu a integridade da cultura indiana face às inúmeras colonizações pelas quais o país passou. Se não fosse esse sistema, a Índia seria um monte de fragmentos, mas o país conseguiu se manter coeso.
ÉPOCA – E até onde vai a influência do sistema de castas na sociedade indiana?
Nanci – As castas não existem legalmente, é proibido considerar alguém um pária.
 Ao mesmo tempo, o costume do povo, principalmente rural, onde a discriminação é profunda, mantém essa prática. É por isso que há um sistema de cotas na Índia, pois todo mundo vê que, estando em situação pior, eles precisam de ajuda. Hoje, há muitos dalits ricos e a Índia já teve até um ministro da economia de origem dalit. Há uma confusão, pois as pessoas acreditam que as posições superiores da casta correspondem a posições superiores de classe. Nós, no Brasil, no Ocidente, nem conseguimos compreender que uma pessoa seja superior e não tenha dinheiro. Um exemplo é o músico Ravi Shankar, que tocava a cítara de forma maravilhosa. Ele podia não ser rico, mas os filhos deveriam tocar cítara e saber todas as músicas clássicas indianas. Se um deles fosse para outra área, como um deles foi [a cantora Norah Jones, filha de Shankar com uma americana], mesmo que ficasse milionário, não seria bem visto.
ÉPOCA – O crescimento econômico da Índia e a aproximação com o Ocidente podem romper esse sistema?
Nanci – Ninguém encontrará resposta para essa pergunta tão imediatamente. Mas é importante ponderar que a Índia já teve contatos de maior contraste com outros modos de viver do que agora na globalização. Não sei por qual razão o mundo ocidental atual pode ser considerado tão imperdível, ou mais imperdível que o sultanato de alguns séculos atrás, por exemplo. A Índia tem inúmeras defesas culturais e pode se adaptar à modernidade.

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