Folclore – O conto

Da Welington Corporation

Folclore, o conto.

Eles jogaram o negão de roupa rasgada pra dentro do camburão, sem a mínima cerimônia. Corpo cheio de hematomas, camisa rasgada, caiu como um saco de batatas descascadas no interior da caminhonete surrada, cheirando a óleo diesel, graxa e suor, desequilibrado pela sua condição de deficiente físico.
– Esse safado perneta, tava lá no morro vendendo trouxinha de maconha!
– Tava Não sinhô, doto policial! Sô homi honrado, num fumo, num bebu, num sô dessas coisas não sinhô!
– Cala boca, Neguinho do Pastoreio! – e outra coronhada na cabeça do pobre coitado, já ensanguentado de tanto levar bordoada de dois brutais homens da policia militar.
 – Acha que a gente acredita em fada? Duende? Hein, saci dos pobre? Cabra avexado de feio, tua mãe jogou fora o bebê e criou a placenta? Eu que não cria em assombração, agora tenho que cuidar de um crioulo feio como porão de navio negreiro. E vai logo entregando teus cumpadres que a noite vai ficá muito feia pro seu lado, neguinho sem vergonha, se você não disser pra quem você trabalha!
– Sinhozinho, eu não sou do tráfico não sinhô! Eu trabalho na floresta, eu sou mateiro, eu faço remédio medicinal, aprendi a muito tempo atrás.
– Eta neguinho disgracento de mentiroso! E outro tapa na orelha do individuo.
– Vai pra gaiola, curupira do morro, corvo preto de senzala! Vai apanhá até a cuca te pegá, traficante miserável.
– Sinhô doto, delegado, vai isso não, que os outro vão vir atrás de mim e eu num sei que bicho que vai dá.
 – Que “outros” bicho safado? Quem são teus comparsa? Deixa eles chegá perto da Delegacia pra virarem rede de pesca de tanto tiro que vão receber. Tem 30 homens lá necessitando treinar tiro ao alvo. Fecha a tampa e leva o neguinho do pastoreio lá pra DP.

O camburão fechou a tampa traseira sob as lamentações do negro de uma única perna e foi-se escoltado por mais duas viaturas para a delegacia no centro da cidade. Arrancaram o sujeito de lá e levaram pra cela, enquanto implorava pra que lhe soltassem porque “os outro iam sentir sua falta e o bicho ia pegá”. O Sargento mostrou uma escopeta carregada, duas metralhadoras com pentes que iam até o chão e mostrando o sorriso amarelo com o dente dourado falou:
– Num vejo a hora de me encontrar com teus amigos, saci-zinho dos inferno!
Dizendo isso lançou o coitado dentro da cela com mais três sujeitos presos.
Passava da meia-noite.
Então se ouviu um ruído estranho do lado de fora da delegacia, o guarda de plantão correu para a porta, mas não viu nenhuma movimentação, a não ser um mendigo esfarrapado, carregando um enorme saco e olhando de modo estranho para eles.
O guarda de plantão empunhou a metralhadora numa das mãos e um cassetete na outra se dirigiu para o outro lado da rua.
– Some daqui, espantalho, pega tuas trouxas e vai embora que aqui não é lugar de mendicância não!
O mendigo permaneceu imóvel enquanto o policial se aproximava ameaçadoramente.
De dentro da Delegacia ouviram um grito abafado e o barulho de uma metralhadora se distanciando e nada mais. Outros dois policiais correram fora e só viram o estranho mendigo com o saco em sua mão. Na cela o ensanguentado deficiente balbuciou umas palavras.
– Eles chegaram. Eles chegaram…
O sargento correu até a cela, bateu com o porrete nas grades e gritou para o deficiente:
– Eles quem, preto velho das trevas? Eles quem?
O homem negro suava lividamente. Encharcava os trapos que ainda restavam com suor. Balbuciou:
– Os outro.
Do lado de fora o barulho de cascos de um cavalo correndo no meio da escuridão denunciavam aproximação de alguma coisa que  vinha de longe queimando como uma tocha acessa.
Ao lado do mendigo apareceu alguém. Mulher com vestido negro e longo, que não permitia que seus pés pudessem ser vistos. 
– O mendigo tá com uma amiga prostituta. Tá pensando que a rua é motel? Vai lá Hernani, tu também Francisco.
Ao pisarem na rua, o ruído de trovoadas e flashes de luzes indicavam a aproximação de uma tempestade. Um dos policiais correu contra o mendigo que também correu na sua direção.
– Parado ai ou te fuzilo, seu animal – gritou o policial assustado – mas não adiantou, o mendigo levantou seu saco enquanto o policial disparou em sua direção repetidas vezes… em vão…O mendigo  lançou o saco ao redor do policial e como se fosse engolido por um gigantesco animal, desapareceu dentro do saco.
O outro soldado aterrorizado com a cena disparou novamente e os tiros penetravam nos trapos que vestia sem que nada acontecesse. Então a mulher levantou uma das mãos e o policial voou quase treze metros, como seguro por uma mão invisível, destruindo o para brisa da patamo onde caiu.
A mulher estranha, de aparência gótica, fixou seus olhos contornados de lápis negro em direção a delegacia e repentinamente a parede externa foi destroçada.

A poeira da parede caindo criou uma nuvem fantasmagórica. O chão da delegacia tremia enquanto policiais corriam em busca de armas, proteção e locais onde pudessem enxergar e entender o que acontecia.
– Barricada! Gritou o Sargento enquanto um dos policiais derrubava uma mesa.
O barulho dos cascos de cavalos parou exatamente ao lado da mulher cujos cabelos agora arrepiados faziam com que ela parecesse uma bruxa saída de um conto inglês.   Na sua frente uma torre de fogo com doze metros de altura e na base da chama algo que parecia um corpo de animal. De uma mula.
O quê qué isso? Isso não pode estar acontecendo – bradou o sargento. Atira nessas coisas!
Vinte metralhadoras cuspiam fogo para frente da parede destroçada e quando a cortina de balas cessou, já não havia nada na frente da do prédio semi-destruído.
Foi quando escutaram a risada. E algo com cabelos arrepiados, se movendo a uma velocidade espantosa, entrou na delegacia. As luzes se apagaram e tornaram a se acender. Um dos policias gritou:
No teto! No teto!
Pendurado nos vergalhões de uma viga que pendia no teto uma criatura com os olhos de uma ave, unhas gigantescas e os pés voltados para trás.
Atira nessa coisa no teto!
Várias rajadas foram disparadas, mas a criatura se movia rápido demais. O delegado olhou para onde ficam as celas e entendeu que tudo tinha a ver com aquele neguinho safado que tinham pego momentos antes no alto do morro. Negro desgraçado, pensou.
O delegado chamou um grupo de policias armados para irem até a cela:
Pra dentro! Pra dentro Acenando com as mãos começaram a correr.

A parte da frente da Delegacia pegou fogo. Do meio do fogo, enquanto ouviam um estranho zurrar, saiu a mulher vestida de preto sem estar ao menos chamuscada.
O delegado alcançou as grades, abriu a cela e pegou na gola do que restou da camisa do negro surrado sentado no chão
– Explica isso ou você morre, preto desgraçado!
– Explicá o que dotô? Sou só um mateiro, eu disse que os outro ia chegar.
O delegado tirou um revólver calibre 38 do coldre, engatilhou a arma e apontou para a cabeça do homem de uma perna só.
Tá me tirando de palhaço? Se essas coisas são o que eu penso que elas são, então tu tá ferrado, saci-zinho de bosta. Já que tudo que tu sabe fazê é redemoinho…
Pela primeira vez o negro parou de balançar a cabeça, ficou sério e mirou bem nos olhos do delegado…
– Eu fazia redemoinho sim sinhô…mas tem muito tempo…muito tempo…eu era pequeno…muito pequeno… antes da cidade grande…do avião…dos navios de ferro…dos barco de madeira…antes dos homi sabê usa forno de fundição e trabalhá o ferro.

E agora, neguinho do pastoreio… me diz antes de morrê, …seu ALEIJADO!…tu sabe fazê o quê?

O negro deu um sorriso inigualavelmente branco quando um mendigo com roupa de trapos, um ser de pés virados para trás e uma bruxa se puseram por detrás do delegado. Então falou:

Agora eu domino o vento. Todo ele.

E dito isso, toda a delegacia foi varrida por um vendaval que arrancou até as fundações do prédio. Quando terminou a ventania, só tinha restado na região devastada um homem de uma perna só, uma bruxa e um mendigo.
A mulher perguntou:
_ Cade o Curupira?
O saci sorriu.
Cavalgando o vento. Como sempre.
Então desapareceram no meio da noite… pleonasticamente… escura.

Welington J F

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