A mãe Digital

Esses novos tempos de relações entre pais e filhos

Hoje pela manhã no trem. (16/01/2012)

A mãe estava revoltadìssima com a filha, que aparentemente estava na casa dos avós ou passando os dias na casa do pai, supondo que fosse separada. A menina tem dezessete anos e faz parte da antiga comunidade virtual que chamamos de Orkut. Embora vivamos hoje na era-pós Orkut, migrando para o Facebook, outro modismo na internet tupiniquim, a moça da história se relacionava virtualmente com seus amigos da escola através do Orkut. A mãe moderna é uma mãe que participa ou ao menos deveria participar da vida virtual de seus filhos. Vivemos na época de interação via computador. Quase impossível uma criança hoje não ter acesso nem que seja via Lan-House a uma comunidade, a um email no Hotmail ou Zipmail ou Gmail e etc, às ferramentas de mensagem instantânea tipo MSN e às Comunidades onde estão representados os amigos, os inimigos, parentes, desconhecidos, e gente de toda a sorte, interagindo através de posts, mensagens, emails, cartões animados e etc.

Os tempos mudam. Antigamente uma menina solicitava uma prova de afeição através de um presente, ou da confirmação de compromisso verbal na frente dos amigos. Hoje em dia é “me prova que me ama, muda o status no Orkut para “namorando”. As reuniões, festas agora são “ eventos” marcados no facebook. Mas, voltando a mãe revoltada, uma “mãe digital”.

A menina resolveu, sem nenhuma comunicação prévia colocar um “scrap” ou “post”, uma mensagem no Orkut declarando-se apaixonadamente para um rapaz da escola onde estudava.

Mas a mãe digital estava atenta. Todo dia lia as mensagens da filha e lá viu a inocente menina despindo seu coração para alguém, de idade muito superior a ela, talvez além do ensino médio, diante de todos os oitocentos e tantos amigos de sua lista de amigos da dita comunidade.

A mãe digital tinha acesso ao Orkut da moça e não somente acesso as mensagens. mas a própria senha da filha. Quando viu a declaração inocente de sua filha APAGOU a mensagem imediatamente e não só a mensagem. APAGOU o contato do indivíduo do Orkut de sua filha. Eu sou “testemunha” auditiva da situação, só escutava a história já que ela a contava ardorosamente para um companheiro de viagem. E não tinha como deixar de ouvir, por conta da proximidade e daquele velho corolário newtoniano de que “dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço no mesmo tempo” em virtude da lotação da supervia.

A menina tinha um nome composto, tipo Ana Beatriz, Tereza Cristina, Ana Paula, etc. O passo seguinte foi telefonar para o celular da menina na casa dos parentes e localizar a filha. Logicamente a menina que estava no computador e viu sua inocente declaração de amor ser apagada, desconfiou de quem havia feito e já estava arrependida do episódio. Ela já havia se arrependido de mostrar as entranhas de sua alma para uma multidão e já tinha recebido dezenas de mensagens algumas admiradas, outras zombando, outras concordando, outras enciumadas, quando se deu conta de que tornou publica uma possibilidade que poderia jamais acontecer.

E agora TODOS sabiam de sua paixão secreta. TODOS os que ela conhecia, em breve os que conheciam os amigos dela e se a mensagem tivesse permanecido por mais tempo, o mundo. E as gerações futuras

E ela não atendeu sua mãe de modo algum.

E ela correu para o quarto para chorar.

E a mãe digital chamou a sua mãe analógica, avó da menina. – Manda a Ana Beatriz descer agora.

A Avó vendo a netinha desolada, com aquele coração de avó que todo mundo conhece, disse que a netinha não podia atender ao telefone naquele dito instante.

Mas a mãe digital sabia o que estava fazendo. – Chama essa menina agora. Ela vai falar abalada, chorando, doente, morrendo, vai ter que falar comigo e vai ser AGORA!

E lá veio a Ana Beatriz. A mãe alertou que se ela fizesse um disparate como esse novamente, ela APAGAVA a conta dela do Orkut. Proibiu ela de ter contato via comunidades com o rapaz mais velho e de fazer declarações em publico. E ainda disse que tinha APAGADO o contato do sujeito do Orkut dela.

E a Ana ouviu em silencio…

No fundo sabia que a mãe digital agia com rigor, mas agia de modo correto.

Nesse momento no trem o companheiro que ouvia a história disse: – Porque você não proíbe ela de usar o micro, apaga o Orkut dela, queima o micro, envia o Bill Gates para junto do Steve Jobs, incendeia os servidores do Google, etc etc.

A sábia mãe digital disse que se ela assim o fizesse, apagar a conta do em-breve-finado-orkut de sua filha iria criar uma conta fantasma em algum lugar qualquer, como a amiga da filha que possuía dois perfis, duas contas, uma para os pais verem e outra a qual só ela tinha acesso, onde marcava encontros e etc.

Ela preferia gerenciar e saber o que sua filha fazia do que o rigor de uma proibição que certamente empurraria sua filha para a contravenção virtual.

Parte da vida de nossos filhos foi transportada do mundo real, para o mundo virtual. Assim como a possibilidade de novos contatos com pessoas, resgate de amizades antigas e a possibilidade de interagir de um modo mais continuo, quase presencial, com os diversos amigos de diversas fases da vida.

E a mãe digital tem que mudar os rumos de sua pedagogia materna. Se parte do mundo em que seus filhos vivem é a internet, então ela deve estar disposta a mudar a estar presente lá também.

Da redação da Welington Corporation

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