“O ‘governante do mundo’ oriental: Josefo, Tácito e Suetônio sobre um oráculo popular”

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Núcleo de Estudos Clássicos – NEC
Universidade de Brasília
IHD – Dpto. de História
Brasília -DF-
70910-900
“O ‘governante do mundo’ oriental: Josefo, Tácito e Suetônio sobre um oráculo popular”

“Concepções metahistóricas na obra de Flávio Josefo”

SBEC – CONGRESSO NACIONAL, 5-10 de agosto 2001

 

 

 

 

Maria Caroline Veloso

História / 7º período

Prof. Vicente Dobroruka
Resumo / abstract (máximo 15 linhas)

   O paper traz uma análise da interpretação do historiador do séc. I d.C., Flávio Josefo, quanto à ascensão do general Vespasiano ao império de Roma. Josefo, sacerdote e general judeu durante a guerra entre judeus e romanos, é aprisionado pela tropa de Vespasiano. O encontro entre eles é marcado pela profecia de Josefo sobre a ascensão do romano ao trono em solo judaico. Essa ‘profecia’ é atribuída a uma das “visões noturnas” de Josefo, mas tem estreita relação com um oráculo popular conhecido nessa época – muito provavelmente integrante dos Oráculos sibilinos – que fala sobre um “governante do mundo” vindo do Oriente. Sobre esse encontro, que posteriormente rendeu a Josefo o apreço de Vespasiano quando este foi, finalmente, aclamado imperador ainda em solo judaico, falar-se-á: a) acerca do próprio Josefo e de suas considerações; b) da interpretação de outros dois historiadores – Tácito e Suetônio – a respeito da ascensão de Vespasiano; c) sobre o oráculo mencionado.


O ‘governante do mundo’ oriental: Josefo, Tácito e Suetônio sobre um oráculo popular (texto final, máximo 8 páginas)
O presente ensaio pretende analisar a interpretação de Flávio Josefo (37-115 d.C., aproximadamente) sobre a ascensão do imperador Vespasiano ao trono romano relacionada a um oráculo popular. As correlações que o historiador faz entre o então general e a figura do ‘governante do mundo’, o contexto da guerra da Judéia nessa questão e as interpretações de outros dois historiadores contemporâneos de Josefo sobre Vespasiano[1] serão aqui estudadas.
Segundo Martin Hengel, o temor do povo judeu da expectativa apocalíptica do fim concretizou-se através da revolta dos Macabeus e da segunda destruição do Templo[2]. Esses fatos estão intimamente ligados à história pessoal de Josefo, tanto por estarem presentes em sua obra quanto por ele os ter vivenciado. O historiador os narra na Guerra dos judeus – BJ – e também fala das suas tentativas de alertar os judeus da desgraça vindoura – a soberania romana no mundo judaico.
Josefo, de ascendência sacerdotal, tornou-se também sacerdote quando, aos 16 anos, optou por ser um fariseu. Teve grande conhecimento dos ensinamentos e textos judaicos sagrados. Acrescentado ao seu estudo sobre a cultura grega e, em menor escala, romana, Josefo pôde visualizar a soberania de Roma sobre a Judéia, o peso cultural – helenístico e bélico – que arrasaria pela segunda vez Jerusalém[3].
O contexto judaico à época de Josefo há muito demonstrava a influência helenística. A cultura palestina revelava traços gregos, como a linguagem – nomes próprios, por exemplo – e a educação – como a existência também dos ginásios. Contudo, ainda não se tinha noção da verdadeira força de Roma. O historiador foi um dos primeiros a perceber o poderio romano e um dos poucos a tentar persuadir as autoridades e o povo a não reagirem contra exército tão forte. Roma tinha o poder material a seu favor, mas o seu maior aliado estava, segundo Josefo, nos céus.
Josefo diz-se encarregado por Deus de mostrar ao povo judeu a sua sorte vindoura, a desgraça do povo eleito que agora era substituído pelo romano. A divindade mudara-se para o Panteão – e isso como punição aos pecados cometidos pelos judeus -, e o historiador sentiu-se em missão profética de alertar quanto a todos esses sortilégios. A exemplo de Jeremias – impelido por Deus a profetizar a queda de Judá -, Josefo vê-se também como um intermediário divino para interferir na resistência de seu povo contra as tropas romanas. O historiador diz que Deus, em suas ‘visões noturnas’, o alerta quanto à punição aos judeus e o seu futuro infortúnio. Ele considera que a teimosia judaica em resistir à invasão romana e a iniciativa de Roma de governar diretamente a Judéia deram-se por vários motivos[4].
Apesar de todos os alertas quanto à soberania romana e ao plano de Deus[5], Josefo não teve sucesso em apaziguar os judeus. Primeiramente, tentou convencer outros sacerdotes, e alguns o seguiram na tentativa de alertar as autoridades da cidade de Jerusalém do perigo de se revoltar contra a investida romana. Contudo, Josefo foi ameaçado por proferir tamanha desgraça, o que desencorajava o povo e os soldados. Acabou sendo convocado para servir na guerra, e enfrentou o exército inimigo chefiado pelo ainda general Vespasiano quando comandava os rebeldes na Galiléia. O encontro pessoal com Vespasiano deu-se após o episódio do suicídio em massa de Jotapata[6] e Josefo, aprisionado pelo exército romano, foi ter com o general.
O fato é relatado pelo historiador em BJ 3. Vespasiano, ao ver Josefo, disse que o levaria cativo a Nero e Josefo respondeu que não havia motivo para isso, pois o próximo César já estava diante dele. O historiador falou-lhe sobre suas ‘visões noturnas’[7] e predisse que ele e seu filho Tito – que acompanhava o pai – “não seriam apenas seus mestres, mas de toda terra e mar e toda a raça humana”[8]. Naquele momento não recebeu crédito, mas no período de dois anos a ‘profecia’ se realizou – no “ano dos quatro imperadores”, 69[9] – e Josefo foi convocado pelo agora imperador Vespasiano, este proclamado imperador em pleno solo judeu. Inclusive, segundo Fergus Millar, se para Vespasiano a conclusão bem-sucedida da guerra civil romana foi a captura de Jerusalém, esta foi uma imensa tarefa, a qual absorveu grande parte das forças militares do império[10].
Adotado pelos Flávios, Josefo tornou-se cidadão romano e compilador dos fatos da guerra e de toda a história judaica. O historiador chegou até essa posição privilegiada utilizando-se de suas ‘visões noturnas’, de sua missão profética supostamente a mando de Deus. Contudo, o historiador utilizou-se de um oráculo popular para predizer a sorte de Vespasiano. Provavelmente originado nos Oráculos sibilinos – textos divinatórios de caráter político e religioso, típicos do Oriente helenístico – esse ‘oráculo ambíguo’[11] trata da figura do ‘governante do mundo’ vindo do Oriente. Ao mesmo tempo a expectativa messiânica judaica interpretava o ‘oráculo ambíguo’ como tendo anunciado que o futuro governante do mundo – oikoumene – emergiria em solo judaico[12].
Segundo H.W.Parke, os Oráculos sibilinos se assemelham, em sua forma atual, à escola bizantina do século VI d.C.[13]. Contudo, provém de um longo espaço de tempo – séc. II a.C. – VII d.C. – e de uma gama de culturas diferentes. O livro 3, onde se encontra o oráculo aqui analisado, indica ter sido produzido por escritores semitas, redigido no Egito. Relata a ascensão e queda de reinos – como o babilônico -, a expectativa profética do fim dos tempos e de figuras que viriam para governar o mundo, entre outros tópicos.
David Aune diz que Josefo atribui ao oráculo culpa no incentivo à revolta judaica em 66-73[14]. O historiador judeu diz que um oráculo, encontrado em suas escrituras sagradas, profetiza sobre um reino que iria governar o mundo, mas que, na verdade, este se relaciona ao império romano e à ascensão de Vespasiano em solo judaico[15]. Ao ser capturado pelas tropas romanas comandadas pelo ainda general Vespasiano, Josefo pediu-lhe uma audiência. Falou-lhe sobre seus sonhos – este é o episódio em que o historiador revela possuir poderes proféticos -, suas ‘visões noturnas’ enviadas por Deus, que o alertavam sobre a sorte de seu povo.
Repentinamente, voltaram em sua mente aqueles sonhos noturnos, em que Deus tinha-lhe predito a sina prestes a se cumprir dos judeus e os destinos dos soberanos romanos. Ele era um intérprete de sonhos e hábil em adivinhar o significado das declarações ambíguas de Deus. Ele próprio um sacerdote e descendente de uma família sacerdotal, não era ignorante das profecias dos livros sagrados. Além disso, naquele momento, ele estava inspirado para interpretar seu significado, e, recordando as horríveis imagens de seus recentes sonhos, ele ofereceu uma oração silenciosa a Deus. “Uma vez que isto te agrada”, dizia, “a Vós que criastes a nação judaica, para romper teu trabalho, visto que a fortuna teria passado inteiramente para os romanos, e uma vez que tu fizeste a escolha do meu espírito para as coisas que hão de vir, eu, de boa vontade, rendi-me aos romanos e consenti em viver; mas eu te tomo para testemunhar que vou, não como traidor, mas como teu ministro”[16].
Quanto a Vespasiano, Josefo lhe profetizou a futura ascensão ao império, baseado em suas informações sobre o poderio romano e em seus conhecimentos religiosos, de um sibilino que falava num ‘governante do mundo’ vindo do Oriente. Logo após a aclamação, o imperador convocou o judeu para lhe acompanhar, como seu braço direito. Não apenas o tornou um Flávio mas também o patrocinou para compilar os fatos ocorridos na guerra e em toda a história judaica – apesar de Josefo dizer que escreve história para o seu povo, tem em vista como seu público os romanos e, mais tardiamente, os cristãos.
A relação de Josefo com o imperador, a interpretação do oráculo acerca de Vespasiano e a vida deste são também analisadas por outros dois historiadores do séc. I d.C. – Tácito e Suetônio. Cornelius Tacitus – 56-57 d.C. – após 117 –  acompanhou a campanha militar dos três imperadores que beneficiaram Josefo[17]. Nas Histórias, o historiador latino discorre sobre Vespasiano, sendo que no livro 4 trata do destino do general ao império. Nas passagens 1.10 e 5.13 ele fala de Vespasiano já como imperador.
Já o outro historiador – também latino – dedica toda uma obra à figura do imperador. Gaius Suetonius Tranquillus – 70 d.C.- após 130 – escreve a Vida de Vespasiano, e aborda o tema do oráculo no livro 4. É mais conhecido por sua obra acerca dos “Doze Césares”, na qual se inclui a vida de Vespasiano[18]. As interpretações dos três historiadores sobre o imperador se diferenciam, entre outros motivos, pelo estilo e pelos diferentes interesses que animam cada um dos dois.
Segundo Rajak, Vespasiano foi o primeiro imperador a ascender ao trono em missão militar fora de Roma[19]. Sobre esse episódio, os historiadores latinos aqui citados discorrem acerca dos meses de 69 que antecederam a aclamação; basicamente sobre a relação entre Tito e o pai em campanha na Judéia[20]. Ainda sobre a ascensão de Vespasiano, a narrativa de Tácito difere da de Josefo por sua visão psicológica quanto à conquista do general em solo judaico. Tácito afirmou que as histórias dos oráculos que o cercavam levaram Vespasiano e seus herdeiros acreditarem no poder que se fazia crer que o tinham[21].
A preocupação com a reputação de Vespasiano é notória em Josefo, mas também se manifesta em Tácito e Suetônio – Rajak afirma que isso se dá por diferentes razões[22]. Suetônio ainda trata da questão de Vespasiano ser o primeiro imperador a patrocinar poetas e oradores para escreverem sobre as conquistas romanas[23]. Josefo cita a questão numa única sentença em sua obra, quando fala da contribuição do imperador ao seu ofício de historiador[24].     
Josefo, sacerdote conhecedor das “sagradas escrituras” judaicas e estudioso da cultura greco-romana, pôde prever o infortúnio de seu povo perante Roma. Além dessas características, o historiador ainda declara em sua obra ter recebido a missão profética divina de alertar os judeus de que Deus os castigaria por seus pecados, voltando-se para o Panteão. Encontrando-se com Vespasiano, Josefo lhe prediz o sucesso romano e sua ascensão pessoal ao império, tornando-se o ‘governante do mundo’.
O encontro do judeu com o general foi essencial não apenas para Josefo – que se tornou cidadão romano e assessor de alta confiança para os imperadores  Vespasiano, Tito e Domiciano – mas para o legado cultural da história judaica, já que Josefo iniciou sua carreira de compilador dos fatos da história dos judeus a partir do patrocínio do império romano.


[1] Tácito e Suetônio (historiadores latinos igualmente do séc. I d.C.) tratam também da vida de Vespasiano e da interpretação de Josefo quanto à sua ascensão.
[2] Judaism and Hellenism. Philadelphia: Fortress Press, 1981.
[3] Alusão ao episódio da primeira queda da cidade e do Templo, quando os judeus foram derrotados pelo império babilônico.
[4] Martin Goodman afirma que Josefo explicita cinco causas lógicas para a guerra: a apocalíptica; a questão étnica; a questão dos procuradores; o caos – doenças, fome, guerra civil; luta interna das facções dirigentes judaicas. Cf. A classe dirigente da Judéia. As origens da revolta judaica contra Roma, 66-70 d.C.. Rio de Janeiro: Imago, 1994. Pp.21 ss.
[5] BJ 6.267-70.
[6] BJ 3.387-92.
[7] Sonhos premonitórios que Josefo dizia ter. A profecia acerca do futuro de Vespasiano foi o episódio mais explícito da obra do historiador em que ele considera possuir poderes proféticos.
[8] BJ 3.402.
[9] Michael Grant. The Ancient Historians. New York: Scribner’s Sons, 1970. P.245.
[10] The Roman Near East. 31 BC – AD 337. Cambridge (Mass.) / London: Harvard University Press, 1989. P.75.
[11] Mireille Hadas-Lebel. Flávio Josefo, o judeu de Roma. Rio de Janeiro: Imago, 1991. P.124.
[12] Tessa Rajak. Josephus. London: Duckworth, 1983. P.191.
[13] Sibyls and Sibylline Prophecy in Classical Antiquity. London / New York: Routledge, 1988.
[14] Prophecy in Early Christianity and the Ancient Mediterranean World. Grand Rapids: William B. Eerdmans, 1983. P.140.
[15] BJ 6.312.
[16] BJ 3.351-54.
[17] Grant, op.cit. p.271.
[18] Idem, p.329.
[19] Op.cit. p.189.
[20] Suetônio. Vida de Tito. 5.1; Tácito. História. 2.2-4; Suetônio. Vida de Vespasiano. 5.6; Tácito. História. 2.78; Suetônio. Vida de Vespasiano. 7; Tácito. História. 4. 82.2.
[21] Rajak, op.cit. p.190.
[22] Idem, p.191.
[23] Vida de Vespasiano. 18.4.
[24] Rajak. Op.cit. P.197.

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