Balaão


Um imenso grupo de gente, incontável multidão se aproximava lentamente da antiga planície. Ali habitavam os descendentes da noite que se perdeu na história.

Os descendentes viram ao longe por semanas uma tocha de fogo que se elevava aos céus, como um redemoinho em chamas que anunciava que os que tinham destruído o Egito, agora se aproximavam. Quando amanheceu os reis do recém fundado reino de Moabe receberam a delegação dos forasteiros que solicitaram passagem por suas terras. Ao longe a multidão, agora guarnecida de uma imensa nuvem que como coluna de fumaça se elevava a frente de uma estranha tenda, uma enorme tenda que sobressaia sobre as outras, aguardava a resposta.
Os reis num misto de inveja e terror, disseram não. Não lhes importava as crianças, os idosos ou o quanto iriam ganhar de tempo. Não permitiriam que aqueles deuses estranhos, nem sua coluna de fogo, nem a tal coluna de nuvem, passassem pela terra dos seus ancestrais.

Os antigos reis observam quando o ancião com o cajado perto da imensa tenda recebe a notícia de que não poderiam passar.

A massa imensa de gente levou dias para se por em marcha. E levaria meses para chegar aonde pretendiam. Mas, isso não era da conta dos soberanos de Moabe.

Muitas noites com insônia se passaram. Depois de muitos dias a tal coluna de fogo e a tal coluna de nuvem reapareceram e com elas aquela inumerável multidão.

Os reis de Moabe e de outras terras chamadas Mídia em terror incalculável resolveram convocar o poder das trevas para impedir que aquela marcha insana continuasse. De boca em boca foi passada a torpe mensagem:

– Convoquem a Balaão.

Na densa escuridão da noite, durante o período que os trovões levam, antes do próximo relampejar, trepidavam patas ferradas dos corcéis negros, ferrando as poças da lama ocre no caminho lamacento até a lendário castelo do feiticeiro mais poderoso da terra. O alvo dos olhos dos animais resplandecia, junto a sua escura crina a cada raio que os iluminava. Montado sobre o negro animal, os mensageiros e das terras distantes de Moabe, com suas indumentárias escuras e encharcadas, gritam para os guardas à frente dos gigantescos portais da antiga fortaleza, na qual Balaão habitava. As imensas portas são abaixadas, enquanto eles ainda chicoteiam os alazões, ao sonido agora ocre, do trote nas pedras lavradas, recobertas de liquens acinzentados, do pátio castelar.

Da sacada superior, uma sombria figura observa a chegada dos mensageiros midianitas e moabitas. Deixando para trás suas cansadas montarias, caminham como arrastassem a si mesmos, até o grande salão de pórfiro e granito, enquanto um sombrio ajudante vai murmurando algum aviso para aquele que se assenta sobre uma gigantesca cadeira adornada de púrpura e de madeira ricamente trabalhada. Quase um trono. O mensageiro entra solene pelas portas palacianas, subindo até o lugar do grande salão rodeado de colunas de rosacrocita. Eles param subitamente e se ajoelham, enquanto as abas de suas vestimentas molhadas enchem como um vestido o lugar onde se abaixam. Na verdade, usam todos capas. Negras. Aquele que está sentado não se vira para cumprimentá-los. De costas ainda, levanta uma das mãos esqueléticas fazendo um gesto com a ponta dos dedos, sob o olhar malévolo e olhos semicerrados do sombrio homem ao seu lado direito. Os mensageiros se levantam e caminham, enquanto suas sombras se projetam na cortinada das colunas, através da luz das lamparinas acesas com óleo de baleia albina. O ruído de suas botas de couro molhadas sobressai agora no silencioso salão, reverberando a cada passo sobre o pórfiro impecavelmente polido. Próximo ao homem assentado, quando se achegam, ajoelham novamente em reverência. Fala então um dos mensageiros de Moabe:

— Ó! poderoso feiticeiro. Nossos guerreiros dalém, nas terras distantes, que batalham já a longo tempo, necessitam dos préstimos de tuas maldições. Os reis de Moabe e de Mídia me enviaram a ti para que, encontrando mercê diante de ti, dignasses a conceder-nos teus dons sobrenaturais contra um terrível povo que vem do oriente.

Quebrava-se o silêncio sepulcral através do murmúrio do vento soprando entre as frestas das pedras nas paredes. Soando tal som como fosse um antigo órgão tubular. O olhar do sombrio homem ao lado do feiticeiro, semicerrou-se ainda mais.
Finalmente o antigo feiticeiro se levantou. Arrastou a estranha roupa cheia de cangas e cordas com ossos partidos e dentes em quantidade que batiam uns nos outros, enquanto se apoiava ao bordão que possuía uma pequena caveira na extremidade, completamente enegrecida. Em suas mãos um colar de conchas e pedras, dando diversas voltas em suas mãos cadavéricas. Ele aperta as conchas com suas velhas mãos enquanto estica o indicador com horrenda unha em direção ao mensageiro.

— Que queres, tu de Balaão? Sabes que sobre quem lançar minha maldição, maldito será por toda a eternidade. Irão secar as fontes e corredeiras de sua terra, seus filhos morrerão ainda jovens de peste e as virgens já não gerará mais. Virá fome sobre as cidades, sequidão sobre as pastagens, doença no gado e nos homens. Não ficarão fracas e inúteis as mãos dos hábeis arqueiros? Não semearia eu terror sobre toda a terra? Que queres de Balaão, servo de ninguém?

– O rei meu senhor pede teus serviços. E te recompensará regiamente.

Balaão se arrasta sobre o pórfiro com uma risada aterradora. Encurvado se dirige a mesa e tomando de um líquido viscoso e cor de sangue, derrama a taça de prata enquanto gotas do líquido vermelho se derramam pelo chão. Ele se volta ao mensageiro, enquanto o barulho do bordão ressoa em todo o salão a cada passo de sua perna coxa. Então fala:

E que povo morto é este, quem serão os coitados e miseráveis sobre os quais se abaterá a palavra da maldição, que se farão como fantasmas e cujas vidas separadas para o desespero serão, que nação é essa que desaparecerá de sobre a face da terra, essa que eu terei o infortúnio de maldizer?

Os mensageiros se calam.

Balaão olha curioso. E grita:

– Respondam-me para que não morram, ainda de pé, mensageiros tolos!

Os céus relampejaram neste instante, tornando o olhar de Balaão ainda mais assustador

– É o povo d’além mar, cujos deuses destruíram a terra do Egito, aquele que de noite vai a frente a coluna de fogo e que ao amanhecer é precedido pela coluna de nuvem.

A taça cai da mão de Balaão. Rapidamente ele expulsa os mensageiros, dizendo que depois dará uma resposta.
Na noite misteriosa e chuvosa, relampeja quando os dois ajudantes misturam junto com o velho bruxo as poções, repetindo as preces e invocações de sacerdotes da antiguidade, de escritos de línguas mortas, e ritos que já não existiam.
Deixando de lado os deuses de Mídia e Moabe, esquecendo-se das divindades dos heteus e jebuseus, Balaão invoca a divindade protetora do povo além do mar. E invoca aquele que conhece por El Shadai, El Elion e Senhor. Escolhe chamar-lhe por Senhor.
Quando o invoca, Ele sente uma estranha presença. Uma poderosa presença. É ele.
Senhor havia chegado.
Senhor se apresenta ao feiticeiro. Balaão conhece pouco a Senhor. Não exigia sacrifícios humanos. Não falava ou agia como os outros espíritos com tratava. Na madrugada, claramente Balaão ouviu uma voz. E sabia quem falava com ele. Era Senhor.

– Quem são estes homens que estão contigo?

Tremendo Balaão responde: Balaque, rei dos moabitas os enviou para amaldiçoar o povo que saiu do Egito.

Senhor responde:

– Você não o fará. Eles são benditos.

E então se cala. A voz nada mais falou. Um feiticeiro só amaldiçoa um povo, se obter acordo com os espíritos que guardam tal povo. Ele os invocaria e veria o que eles pediriam para atender a Balaão. Mas não havia acordo com Senhor. Ele não negociava. Jamais.

Contrariado ele despede aos mensageiros.

– Vão embora, mensageiros de ninguém. O espírito que guarda ao estranho povo impediu-me de amaldiçoar ao estranho povo. Vão. Vão e não voltem mais.

Quando os mensageiros chegam ao amanhecer, ainda chovia sobre as planícies de Moabe. Balaque se desespera. Envia seus mais nobres príncipes com riqueza e recompensa como nunca antes um feiticeiro na terra, jamais fora agraciado. Eles chegam com ovelhas em multidão, bois, cabras e camelos. Trazem especiarias, azeite e mel, passas e damascos, vinho e leite. Mantas púrpuras e carmesim, vestidos bordados de azul e ouro.
Seus olhos faíscam com a avareza. Riqueza inimaginável.
Ele finge não se interessar. Porém ao ver tamanha riqueza, Balaão decide tentar negociar com Senhor. Mais uma vez.

Ele insiste permissão, ao menos para ir com eles. Mas, dentro de si maquina um plano. Ele invocará outros deuses e certamente haverá mais poderosos que Senhor. Ele só precisa ir.

– Vá com eles. Ao amanhecer. Mas só farás o que eu te disser.

Balaão concorda. Mentindo. Ele se ajoelha, como se pudesse enganar sua verdadeira intenção.

Ainda de madrugada, antes que amanhecesse, inquieto, preparou sua velha montaria. A mula. A velha mula. Rico. Rico, ele pensava. Porém, Senhor escutava seu coração.

Na subida dos montes em direção as fronteiras de Moabe uma velha mula se assusta. O velho animal empaca ao sentir o poder espiritual e a luz que só ela, a mula, enxerga. As crinas no pescoço acinzentado do velho animal se arrepiam ao ver a estranha criatura. E seus olhos se fixam nas mãos do anjo que carregam uma espada incendiada. Na região montanhosa Ela, a mula, quase esmaga a perna de seu dono. Ele espanca a coitada e continua a íngreme subida. Outra vez o ser aparece. E só ela, a mula, consegue enxergá-lo. Desta vez Balaão é empurrado contra a encosta rochosa. Descendo furioso do animal, ele o chicoteia sem misericórdia. Em meio aos gritos da mula, um assombro. Ela se vira para Balaão e dotada de repentina inteligência, deixando de lado os zurros, contra tudo que poderia se esperar de tal animal, ela fala.

– Porque me espancas assim? Já fiz algo contigo assim, nos muitos anos que sou tua montaria?

Balaão era um feiticeiro. Adivinhava pelas nuvens. Orava para árvores sagradas. Acostumado aos ruídos estranhos e as bruxuleantes manifestações de todas sortes de espíritos, das divindades em formas de animais, não estranha o acontecimento. Os animais em seus sonhos falavam. Ele simplesmente responde como se fosse natural conversar com um animal.

– Maldito animal, por duas vezes você quase me esmagou a perna!

Então seus olhos são abertos. Vê o que só sua mula via. O ser com uma espada incandescente. Ele cai de joelhos enquanto ouve agora, não mais a voz da mula, mas a voz do ser que se interpunha em seu caminho:

– Se teu animal não tivesse impedido, tu agora estarias morto. Foi essa a ordem que foi te dada?

– Não.

– Espera o amanhecer e vai com aqueles que eu ordenei.

A visão se desfaz. Balaão entende que nada pode esconder diante daquele, que tudo vê.

O feiticeiro volta para casa e ao amanhecer sobe até as montanhas, acompanhado de comitiva real dos moabitas.
Então chega ao cume dos montes ao entardecer, no momento em que a nuvem branca que se eleva da terra a frente da multidão, próxima a grande tenda, tornár-se em chamas e incandescer. A face de Balaão e as terras de Moabe se iluminam com as chamas da coluna que se ergue na frente da tenda do santuário, do Deus do povo d´além do mar. Balaão sabe que nada poderá fazer. Invoca suas divindades e faz seus ritos, mas não são os espíritos ancestrais que vão ao seu encontro. É ele. O protetor daquele povo. Senhor. El Shaddai. Tomado de um poder que arrebata suas entranhas e que lhe enche de palavras, profere:

De Arã, me mandou trazer Balaque, rei dos moabitas, das montanhas do oriente, dizendo: Vem, amaldiçoa-me a Jacó; e vem, denuncia a Israel.

Como amaldiçoarei o que Deus não amaldiçoa? E como denunciarei, quando o SENHOR não denuncia?

Porque do cume das penhas o vejo, e dos outeiros o contemplo; eis que este povo habitará só, e entre as nações não será contado.

Quem contará o pó de Jacó e o número da quarta parte de Israel? Que a minha alma morra da morte dos justos, e seja o meu fim como o seu.

Balaão sabia que ao pronunciar aquilo, perdia todas as riquezas prometidas. Mas nada podia fazer. Era o Senhor que falava através dele.
Quando descem do monte naquela noite, ele ainda almeja a riqueza que lhe escapou. Ainda anseia pelo ouro que lhe foi ofertado.
Então sua alma de feiticeiro fala mais forte, do que o dia em que se tornou profeta.
Ele olha para Balaque e diz:

– A única chance de Moabe, é que eles se afastem do Senhor. Usem suas mulheres mais belas. Seus ritos mais torpes. Mexam com o desejo humano. Tornem os filhos deste povo, adoradores de deuses desta terra. Contaminem sua herança. E então, vencereis…

Os conselhos de Balaâo são seguidos a risca. Milhares de mulheres moabitas e midianitas são convocadas para festividades que durariam semanas, concedidas as mais nefastas e torpes divindades de Canaã. E os ritos que misturavam prazer e vinho; incenso e orgias, contaminou de modo profundo a Israel.
Até que veio a praga. E milhares morreram enfermos.

Meses se passaram quando outra comitiva convocou o mesmo Balaão. Agora para uma guerra. Israel, tendo Moisés como comandante viria contra as forças de Balaque e Moabe.

Os exércitos se aproximam numa multidão considerável. Ao longe se destaca a figura torpe do bruxo dos bruxos. Segurando seu bastão enegrecido e invocando suas divindades, qual um sacerdote de poderes negros, ele amaldiçoa ao exército inimigo. Ele amaldiçoa a Moisés.

O profeta olha para o imenso exército e experiente exército. Olha para os doze mil separados contra a superioridade inimiga.

E de longe, encara a Balaão. O cajado negro levantado sobre o monte o denuncia.

Um segundo bastão é levantado. O cajado de Moisés. E Israel parte para a batalha sangrenta.
O exército do mago contra o exército do profeta.
Não. Contra o exército de Senhor.

Naquele entardecer um exército inteiro morre, junto ao seu feiticeiro.

Os moabitas foram proibidos de sequer se aproximar da tenda da congregação. Nenhuma geração jamais teria o direito de adorar ao Deus de Israel nem na tenda da congregação, nem no templo que um dia se ergueria em israel.

…Nenhuma geração…

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