Fantásticas memórias do Exílio



E foram histórias tristes
Dentre fábulas fantásticas
E desceram montes apáticos
Vestidos de couraças gélidas
E criam naquelas bandeiras
Na verdade, estandartes levantados
Por jovens de mãos fortes
Acostumados com o gemido das batalhas
E foram torrões acesos
Brilhando com suas espadas
Por entre as vielas Curdas
Por entre os pastos queimados
Sangrando homens treinados
Gritavam cavalos baios
Brindavam espadas raras
Cresciam pavores plenos
Marechais e comandantes
Seus soldados agora errantes
Entre as pilhas dos caídos
Entre os gritos dos vencidos
Avante! Cavalos baios
Por esses morros infames
Lutar na guerra sem nome
Até não poder correr mais livremente
Até que só sobre a fome.
Caiam desfraldadas bandeiras
Caiam pendões entre mãos trêmulas
Até que se aquietem os vales
Até que se aquietem os vales

Todos os personagens deste livro são fictícios.

Qualquer semelhança com alguém real é mera coincidência…

Inclusive o autor…

E o livro…

Talvez…

Quem saberá ao certo?

Você que o lê agora…

Sobre a Guerra

Houve um tempo além do tempo, quando as estrelas recém nascidas ainda quentes emanavam mais luz que olhos humanos seriam capazes de enxergar, num lugar impensado, diante de paisagens deslumbrantes, rodeadas de espectros e cores hoje inexistentes, onde anéis de asteróides feitos de cristais de ametista e nuvens de gás feitas de azul cintilante mescladas de faixas prateadas entrecortavam os espaços celestiais.

Houve um tempo, além do tempo que um anjo translúcido e reluzente, em movimentos espirais de significados desconhecidos, correu em direção a um segundo e tenebroso anjo, com ordem de não deixá-lo passar. Numa época de desatino e loucura na qual alucinadamente, num delírio espectral, anjos escolheram as trevas como casa e a escuridão como envoltório. E nesse hiato entre o que foi e o que o universo veio a se tornar, entre a eternidade passada e o passado da eternidade, um destes mensageiros de trevas foi interceptado por outro mensageiro, que recusando as trevas confirmou para sua morada a própria luz.

Quando se viu perseguido, o maligno, numa reviravolta espantosa, se atirou sobre o primeiro. O que vinha em perseguição esperou a iminente colisão.

Os dois oponentes diametralmente se chocaram ao norte da imensidão. Lá onde hoje, se estende o vazio. O que não tinha nome, cuja origem era a luz, permaneceu impassível diante do cataclisma. Na onda e no turbilhão que se seguiram, energias fantásticas percorrendo distancias inconcebíveis desabaram sobre duas estrelas gigantescas que se rasgaram. E uma galáxia inteira se colapsou.

Incontinente, ele não se moveu.

Lançado longe por sua própria tentativa, consciente entretanto do arroubo de seu terrível poder, novamente atacou, o maligno. Na segunda feita, foi tão violento o embate, que o primeiro não pode se segurar no tecido do invisível, sendo arremessado impetuosamente ao centro de uma terceira estrela, atravessando-a como fosse uma espada afiada.

O de trevas avançou violentamente e então rasgou a estrela ferida indo ao encontro do primeiro anjo.

Noutra torrente de interminável escuridão, se lançou para destruir o formidável ser.

Dobraram-se mais uma vez as estruturas das dimensões e expostas foram as vísceras das constelações, vindo outra galáxia a contorcer, gemer e perecer.

Turbilhões de gás se espalharam no fatídico dia em que nasceram as nebulosas.

Do vento feito de energia, o tecido da existência foi arrastado formando-se assim os buracos negros.

Incandescia a fronte do formidável…

… Quando pela primeira vez…

Aquele que era como a luz…

… revidou.

Welington Language Institute

Meu amor,

Olha só

Hoje o sol

Não apareceu

Numa apresentação da

Twenty Century Welington

É o fim

Da aventura humana,

Na terra

Coprodução da fantástica

Welington Corporation

Meu planeta adeus,

Fugiremos nós dois na arca de Noé

patrocínio

By Welington

Productions

Olha meu amor,

O final da odisséia terrestre

Sou Adão e você será

Prólogo

11 de setembro de 1823

“— Há muito dia passado, rumando pro sol poente, numa terra virge dos homî, vermelhos ou brancos, lá na terra de Urucu, foi que se assucedeu.

Os olhos vivos de Eliã deixavam transparecer seus pesadelos, suas recordações e seus sonhos. — Ôô-îuká. (Eles matam em Tupi-Guarani) disse minha avózinha, sobre as história que ascutou da sua mãe. Havia quatro menina, que já tinham sumido da aldeia, lá da tribo dos pataxó, que tinham nomis estranhos. Uma chamava Bela, otra Semente, uma era Canto e a otra Esperança. Minhas amigas, os meus laços e minhas irmãs, que moravam comigo na antiga taba, a grandiosa taba dos meus antigos ancestrais. Foi quando os bichos guinchavam nas noites sobre os Ipês e Sussuarunas, quando nas torrentes dos rios escureciam as águas do negro rio. As peste gritavam procurando minhas irmãs. Pajé falou pra ficar quieta, junto das armas que nem os mais valentes levantam, no dia das assombração. No dia da dor, quando os bicho arremeteu, eu perdi minhas irmã. Chorei noite a dentro pelas minhas pequenas irmãs. Decidi cumigo merma: essa noite eu vou atrás desses bicho assassino, que tiraram a luz dos olhos brilhantes. Se eu morrê, que me enterrem no rio, que num mi importa mais. Essa noite eu vou sai pra caçá, que era assunto proibido pras mulher da minha tribo. Num importa, essa noite eu vou sair pra caçá, com a lâmina que brilha, que os valente da minha tribo encontrou na noite em que os céus queimou, lá no igarapé, cravada nas raíz da castanheira. Faca enorme, esquisita, que vez por outra ilumina como fogo de carvão, mesmo cum noite sem estrela. Os valente disseram que é a lança que Tupã jogou na terra. Essa lança que eu vou usá contra a coisa ruim, já que flecha num adianta, já que grito e fogo num espanta as criatura, vou assim mesmo.

Assim Eliã contou a história para as de sua descendência, onde haveriam de nascer outras Eliãs. E assim a cada década, a anciã que representaria a mais idosa do clã reuniria sua parentela para narrar os fatos que deram origem a lenda. Lenda que seria contada desde essa noite perdida nas folhas sobre folhas, das incontáveis folhas do chão da floresta do tempo.

— Num olhei pras costa, num vi que me acercava as árvore, quando se assucedia das trevas me encobrí como coberta, porque só alembrava das minha irmã. Ia chorando, aos pés das aroeira e ipê, desviando dos cipós que caíam sobre as árvores, como teias daquelas aranhas caranguejeiras. — A velha índia com cabelos embranquecidos, pele crespa do tempo, falava com uma voz pausada e firme, para a multidão das crianças ao redor do cajueiro, ao lado da velha cabana, daquela vila de Coari. Os olhos das crianças, sentadas no chão, debruçadas sobre a relva, pisando pés de arbustos de confrei, ou sentadas sobre os galhos dos cajueiros, cintilavam a cada palavra que brotava da boca da anciã. As mães de pele morena, longas cabeleiras negras e lisas, apertavam suas crianças de colo ao peito, enquanto homens avermelhados, com cabelos curtos e negros como o corvo, seguravam as velhas lanças da tribo que já não existia mais. Moradores de Coari, trabalhadores em fazendas, catadores de castanhas, plantadores de guaraná e pescadores de rostos rudes, participantes da massa de gente que se ajuntava naquele dia de declarações. Tucanos curiosos e araras gigantescas se ajeitavam sobre os imensos galhos dos cajueiros, ao lado das crianças, interrompendo vez por outra a palestra com seu chalrear e com seus berros. Firmando as mãos encarquilhadas sobre um tosco bordão a velha Eliã continuou:

— Enxugava com uma das mãos os rios d’água que brotavam dos meus olhos de menina, quando o coisa-ruim berrou do outro lado da floresta. O grito do animal cortava o vento como o fogo, crispando a palha e me fazia tremer como um macaco acuado pela onça. Depois do grito eu sabia, ah! Eu sabia… que viria o pipocar das árvore e o romper dos galho, quando a criatura incansável corresse na minha direção. Eu num tava muito distante do grito e sbia que já tava morta. Num tinha mais como escapá da criatura. E também num importava mais. A macacada desesperada fugia pelos galhos altos dos Tucumanzeiros enquanto uma revoada de tucanos já mostrava que o bicho-ruim tava chegando.

As crianças demonstravam desconforto cada vez que o bicho era mencionado. As de colo se apertavam mais ainda aos seios de suas mães. Os mais idosos seguravam seus chapéis de palha e batiam os pés descompassadamente. Eliã continuou:

— Ouvi o grito da criatura e me tremi toda. O vento soprava por dentro da floresta e o chão tremia com as pancadas das patas do animal. Eu apertei a espada, enrolada na tapuá trançada de fibra de juça que guardava Mouajé, e deixei Mouajé nua, a espada cintilante do extinto Igarapé. Longe ouvi os tronco sendo despedaçado, e longe ouvi as árvore gritando de dor pelas mãos do animal destruidor. Os troncos partia com o som dos ribombá dos trovão, igual quando nas chuva se derrama os raio. Eu tava na clareira, perto do rio negro, perto onde minhas irmãs morreram. Foi quando vi as árvore gigantescas sendo jogadas pro alto enquanto vinha o monstro em minha direção. Quanto mais ele se apruximava, mais árvore caia perto. Inté que caíram as duas últimas que faziam a fronteira da clareira. Os olhos do bicho faiscavam. Minhas mãos tremiam. Meus pés tremiam. Meu coração tremeu. E daí? Eu num ia imbora mesmo. Eu num tinha pra onde me esconder, num tinha pra onde correr. Eu num tinha mais nenhuma irmã. Foi intão que o bicho veio correndo em minha direção. E foi intão que eu corri na direção do coisa-ruim. Eu num só alembro de levanta a Mouajé e escuta um ronco, um trovão, um negócio que parecia um raio batendo ni mim, que me arrepiou os cabelo, quando a coisa me tocou. E inda ouvi o grito da criatura que me estrondou os ouvido. Ai eu só avistei a escuridão. Quando me encontram a clareira inda pegava fogo, enquanto deitada eu no sangue de minhas mãos. Só num queimei porque chovia.

Chovia dimais…”

Terminada a prosa, entoando cantigas ancestrais, a imensa família rumava para barcaças de proa esverdeada, amarradas em cais improvisados, na beira do barrento rio Solimões. No percurso tortuoso que duraria três dias, os barcos seguiriam iluminados por antigos lampiões cheios de óleo de peixe boi, que vistos dos céus de noite seriam como pingos dourados piscando ao longo de um caminho ora negro, ora prateado, destacando-se em densa e úmida escuridão. Dois rios após adentrariam as águas negro-esverdeadas apinhadas de piranhas e botos brancos do antigo Urucu. Então, descendo a grandiosa comitiva, caminhariam léguas pela floresta úmida, pisando a pé os Igarapés, de onde, na época, mui longe, se avistavam cabanas toscas de larga frente, montadas sobre árvores, pertencentes às raras famílias ribeirinhas que viviam da colheita de castanhas. Caminhariam até a imensa e lendária clareira, debaixo dos gritos de papagaios dourados, envoltos pelo véu da noite estrelada, onde depositariam flores aos pés de pequenas pedras brancas, cravadas no chão da lendária clareira, aonde se liam os nomes:

Bella, Sementhi, Cantho e Essperancça

Então desembrulhavam a antiga espada brilhante, envolvida nas fibras de juça, e a balançavam suavemente gerando nuances azuis e violetas, quando de mão em mão dançava a espada, até retornar às mãos da velha Eliã, que a tornava a embrulhar.

E a chorar.

Capítulo Primeiro

“A vida é como um sutiã, por isso, meta os peitos”

11 de agosto de 1999

Dentre as muitas histórias deste livro, não poderia deixar de narrar a fábula do amor entre Nexter e Aninha. Desde as primeiras cartas, dos fantásticos desencontros e por fim o inesquecível desfecho da história. Aninha, Nexter conheceu só por cartazes. Menina propaganda de uma grande empresa de telecomunicações, de olhos azuis e cabelos negros azulados, tês alva e sorriso incomparável. Ninguém sabe ao certo como ele conseguiu o e-mail dela. Os dois hackers de Urucu, o Aluízio ceará e o temido Carlos Borges guardaram silêncio absoluto sobre o assunto em questão. Contam somente que numa dessas viagens para Urucu, no desembarque no aeroporto, os dois que se substituíam na estadia dentro da província petrolífera, num regime de 14 dias internados por 14 de folga em seu estado de origem, se depararam com Nexter sonhando acordado diante de um imenso cartaz de sua musa inspiradora. Depois de conversarem por quase uma hora e continuarem, ainda assim vendo-o naquela mesmíssima pose de deslumbramento, como se o tempo tivesse parado, tiveram a suprema inspiração. Diz a lenda que foi neste momento lúdico, que eles, nossos poderosos hackers, começaram a busca pelo e-mail de Aninha.

Ninguém dormiu naquela noite mágica, quando o tal e-mail apareceu num bilhete escrito no bolso do macacão alaranjado do Nexter. E como não poderia deixar de ser, quando as cópias dos e-mails enamorados foram distribuídas por vários povoados ao norte de Coari, ninguém jamais descobriu como foram copiados. A primeira carta era espetacular:

Oi. Eu sou o teu maior fã. E mesmo sendo estranho que eu, um completo desconhecido, a quem você certamente só ouviria por educação do que por qualquer outro motivo, queria aproveitar este momento eterno, ao menos para mim, essa oportunidade única, pra te dizer que te amo. Que amo esses teus olhos, amo esse teu sorriso e o jeito como teus lábios se movem, quando teus olhos que sempre queimam em mim, sorriem juntamente. Você poderia me questionar, perguntando — Como pode me amar sem me conhecer… Sem saber como sou… Sem saber quem sou? — É porque vejo um pouco de você através de teus olhos, e do teu sorriso. E mesmo que você fosse insuportável, ou geniosa, e mesmo prepotente, ou arrogante, se um terço, somente um terço do que me transmite o teu olhar, essa dignidade oculta, essa vontade de viver imberbe, indizível, se somente um terço de tudo que eu sinto quando te percorrem meus olhos, for verdadeiro, só por isso já vale o fato irrevogável de te amar por todos os meus dias, mesmo porque eu irei sorrir a cada dia que te vir sorrir, inda que numa foto emoldurada, pois isto é algo sobre o qual não tenho controle. Pelo caminho que terei que cursar, te levando em sonhos, te amando aos poucos, não poderia evitá-lo. Não pense que me ufano sobre tua perfeição, e não te enganes que eu não virei a te adorar, a não ser como carinho, não estenderei um altar sobre ti, sobre o qual venha a queimar velas. Você não é minha deusa, jamais será minha dona. Você é minha dádiva, meu encanto e meu amor, mesmo que quisesse não te esqueceria, pois vives nos recantos da minha personalidade. Esse coração, talvez infeliz, te elegeu como musa e se recusa terminantemente a te abdicar. Não irei morrer por você, não me ufano do teu amor, e não me faria diferença a tua indiferença. Porque, por mais ferido que fosse, esse bastardo coração, já fazes parte dos meus dias e das minhas noites, destas que são contadas como o tempo que me foi concedido para viver…”

Não é necessário dizer como as meninas de Urucu suspiravam a cada embarque de Nexter…

E também não seria necessário dizer que quase perdemos, por motivos vingativos tácitos e mórbidos e cruéis, nossa inestimável dupla de Apoio na área de Informática.

Impressionantemente, toda história possui um começo. E por mais assombroso que possa parecer, a nossa história, nossa interessante jornada, se inicia agora…

Dublado nos estudios do Mem Ex Group

Era uma vez um certo grupo de Engenharia que sempre possuía um corpo de técnicos fiscais de obras industriais, à prova de intempéries, bravos, destemidos, homens acima de quaisquer suspeita, que dominavam disciplinas técnicas diversificadas tais como: Instrumentação, Eletricidade, Mecânica, Tubulação, Civil, Física Nuclear, e outras inumeráveis disciplinas, sendo capazes de trabalhar, fosse no pólo norte até ao interior de selvas africanas. E perpertua a Lenda que para todos os outros casos, existia o Exílio.

O ‘mardito’ Exílio

Havia um cerimonial que aplicávamos quando ocorria a convocação de um pobre coitado, digo, alijado, digo, algum infeliz, quer dizer, um dos “agraciados” que trabalharia em algum lugar, usualmente, um pouco além de onde a civilização termina. Escrita com nanquim num pedaço de sépia enrolada que nomeamos: Pergaminho da chamada abrupta.

Ei-la:

Na densa escuridão da noite, durante o período que os trovões levam, antes do próximo relampejar, trepidavam patas ferradas do corcel negro, ferrando as poças da lama ocre no caminho lamacento até o lendário castelo das forças de ocupação. O alvo dos olhos dos animais resplandecia, junto a sua escura crina a cada raio que os iluminava. Montado sobre o negro animal, Morfagnad, o mensageiro das terras distantes, com suas indumentárias escuras e encharcadas, grita para os guardas à frente dos gigantescos portais da antiga fortaleza. As imensas portas são abaixadas, enquanto ele ainda chicoteia o alazão, ao sonido agora ocre, do trope nas pedras lavradas, recobertas de liquens acizentados do pátio castelar.

Da sacada superior, uma sombria figura observa a chegada de Morfagnad, o mensageiro. Deixando sua cansada montaria, Morfagnad caminha, como arrasta-se a si mesmo, até o grande salão de pórfiro e granito, enquanto um sombrio conselheiro vai murmurando algum aviso para aquele que se assenta sobre uma gigantesca cadeira adornada de púrpura e de madeira ricamente trabalhada. Quase um trono. O mensageiro entra solene pelas portas palacianas, subindo até o lugar do grande salão rodeado de colunas de rosacrocita. Ele pára, subitamente, e se ajoelha, enquanto as abas de suas vestimentas molhadas enchem como um vestido o lugar onde se abaixara. Na verdade, usa uma capa. Negra. Aquele que está sentado não se vira para cumprimentá-lo. De costas ainda, levanta uma das mãos com a luva de couro e faz um gesto com a ponta dos dedos, somente abrindo a mão, sob os olhos malévolos e semicerrados do sombrio homem ao seu lado direito. O mensageiro se levanta e caminha, enquanto sua sombra se projeta na cortinada das colunas, através da luz das lamparinas acesas com óleo de baleia Albina. Ao longe se esconde uma menina de olhos encantadores azuis, vestida com uma roupa mesclando azul e branco, com um avental vermelho, uma das dezenas de serviçais do imenso castelo. Seus cabelos negros avermelham-se pelas luzes e matizes das lamparinas cujas chamas tremulam naquele dia de tormenta e tempestade. O ruído de suas botas de couro molhadas sobressaem agora no silencioso salão, reverberando a cada passo sobre o pórfiro impecavelmente polido. Próximo ao homem assentado, ao se achegar, se ajoelha novamente em reverência. Fala então:

— Ó coordenador do castelo. Nossos guerreiros dalém, nas terras distantes, que batalham já a longo tempo, necessitam dos préstimos de um dos servos sob tua alçada. O coordenador das terras distantes me enviou a ti, para que, encontrando mercê diante de ti, dignasses a conceder-nos um dos teus homens para nos socorrer.

Quebrava-se o silêncio sepulcral, através do murmúrio do vento soprando entre as frestas, das pedras nas paredes, soando como fosse um antigo órgão tubular. O olhar do sombrio homem ao lado do coordenador, semicerrou-se ainda mais. Por fim o homem assentado falou:

— Escolhe aquele que queres, e depois to enviarei. Por tempo determinado. Trava então tu, as batalhas que dele dependeres, entretanto, saibas, que este voltará quando minha vontade assim o determinar.

O mensageiro se levanta. Com cortesia agradece, enrola o manto negro sobre o rosto e prepara-se para partir. Desta vez o sombrio homem, até aquele momento calado, com uma voz de ratazana completou o enunciado:

— Lembra-te… Por tempo determinado…

O mensageiro se inclina ligeiramente, dando meia-volta e sumindo na penumbra do castelo. Um relinchar apavorante se ouviu. E depois a chuva. Somente a chuva. Nada mais.”

Esta sombria história localizava-se num rolo, no “Fabuloso pergaminho da chamada abrupta” o qual, simbolicamente, nos era entregue por algum colega (sádico) de trabalho no “dia da chamada”. O “dia da chamada” era o trágico dia em que algum chefe de Obra desesperado iria convocar um técnico qualquer, para trabalhar em algum lugar qualquer, onde os requisitos mínimos necessários fossem capacitação em: ‘Combate a incêndio’, ‘Primeiros Socorros’, ‘Guia básico de como sobreviver a quedas de avião em florestas densas’ e um ‘Atestado de vacinação para tifo, febre amarela, malária, tétano e o que mais ocorresse.’.

Naquele dia na sede do prédio de Engenharia, eu que havia sido emprestado para o setor de Orçamento, digitava uma dessas planilhas gigantescas em Excel, quando recebi o telefonema do meu setor de origem. O dia da ‘chamada’ chegara. Em verdade era o que o pessoal chamava de Fiscal de Campo, um desses sujeitos que carregava uma prancheta na mão percorrendo trechos de plantas industriais, procurando algum tipo de montagem em desacordo com as normas. No meu caso, normas de eletricidade. De “Campo”, nós apelidávamos qualquer Unidade Industrial, Obra ou Instalação. De “Sede” nomeávamos de Escritório. E ali estava eu, na Sede, há seis meses, em virtude do término das obras. Meus olhos doíam de tanto olhar para a tela do computador, ao lado de um colega de nome Helon, Analista de Sistema do setor. Atendi. Era meu chefe.

— Oi Welington, tudo bem? Como estamos? Estou ligando para te dizer que estão precisando de uma pessoa de eletricidade numa obra no Norte.

— Onde? Quanto tempo?

— No máximo por três meses. Começa semana que vem. Você vai substituir um técnico. Tudo bem?

— Onde?

— Pertinho, fica tranqüilo.

— Quem vai estar lá?

— Alguns você já conhece. Lembra do Jayme? Também estarão lá o Aluízio Xavier, fiscal de tubulação, aquele paraibano. Vai estar lá o ‘cientista louco’ Nexter, o japa, Hikano. Na área de Segurança o Alexandre… E o andróide.

— O Boot? Já estão aceitando ‘máquinas’ na fiscalização?

— A carência de mão de obra é muito grande aonde você vai.

— E posso saber para onde estou sendo enviado?

— Olha, não posso dar mais detalhes agora, porque tenho uma reunião. Fica tranqüilo. As passagens de avião eu já mandei para sua casa! Até mais…

O Helon olhou para minha expressão de ‘terror sobrenatural’, misturado com ‘espanto e pasmo’, sorrindo ele abriu uma gaveta, tirando de dentro dela uma caixinha negro-esmeralda. Retirou da pequena caixa ‘o Pergaminho’ e o colocou sobre minhas mãos. E apesar de não ser uma prática consolidada, cantou-me a velha canção:

I'm singing in the rain
Just singin' in the rain
What a glorious feeling
I'm happy again
I'm laughing at clouds
So dark up above
The sun's in my heart
And I'm ready for love
Let the stormy clouds chase
Everyone from the place
Come on with the rain
I've a smile on my face
I walk down the lane
With a happy refrain
Singin', just singin' in the rain
Dancing in the rain 
Ohh ia ohh ia ia
I'am happy again
I'am singing and dancing'in the rain
...
dancing and singin'in the rain

E como chovia naquela floresta, eu viria a descobrir…

Quando eu era um filhote, digo, pequeno, recordo que aconteceu uma grande e tremenda tempestade. De pés descalços e sem camisa, avistei as nuvens escurecendo cada vez mais, vindo de longe e se aproximando, enquanto uma ventania descomunal fazia pequenos rodamoinhos. Logo os céus eram somente escuridão, e a chuva torrencial descia abundante enquanto eu corria para o apartamento onde morava, procurando me abrigar. As crianças desde cedo se encantam com a chuva. Perdi a conta das vezes que permanecia contemplando as gotas de chuva escorrendo na janela, percorrendo o vidro que era preso com massa de vidraceiro em caixilhos de madeira.

O Exílio era logo ali, ali a 620 Km de Manaus, onde o vento não faz a curva, simplesmente porque não consegue passar pelas árvores centenárias, de tão próximas que alcançavam quase cento e vinte metros de altura.

O Exílio era logo ali, às margens do rio Urucu.

E em breve, muito breve eu estaria lá.

Fantásticas memórias do exílio

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